Houve uma falha
e agora ninguém quer assumir
a culpa.
Ninguém escuta.
Ninguém fala.
Só se ouve o rio,
O barco
que quer ir para longe,
Ouve-se o fio
de água que desliza
na voz das marés.
E as águas passam
Caladas como monges
na preamar do
silêncio.
Não foi falha,
Foi sabotagem.
O tempo passou
e não se viu.
Deixou-se vazar
o carinho,
Da carícia
restou o casco
vazio.
E as mágoas
de sizígia desse
a-mar
exigem muito.
É um esforço inútil
ir de encontro à
correnteza.
Pôr os pés no cascalho
agora é um desejo fútil.
É a água-viva
no mar morto
que nada
nada
nada
nada...
E depois de muita água
esse quase-poema
desemboca
aqui
.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Cosendo
Não queremos ser apenas nomes
para olhos que só vêem botões.
Para quê botão?
Para quê fechar?
Para quê desfecho em algo que mal começou?
É começo
de continuação...
Botão, só o das flores
e das canções e das rimas
É Marina
É Pedro
É o velejador
E não há dor onde se é pedra
E não é perda de tempo
Há muito tempo (!)
Ainda
Para começar
E continuar
E até prosseguir
Para revereinventar
aqueles velhos dois dedinhos de prosa
ou poesia
Que existem desde que o mundo é mundo,
Desde que chamar-se Raimundo virou solução.
para olhos que só vêem botões.
Para quê botão?
Para quê fechar?
Para quê desfecho em algo que mal começou?
É começo
de continuação...
Botão, só o das flores
e das canções e das rimas
É Marina
É Pedro
É o velejador
E não há dor onde se é pedra
E não é perda de tempo
Há muito tempo (!)
Ainda
Para começar
E continuar
E até prosseguir
Para revereinventar
aqueles velhos dois dedinhos de prosa
ou poesia
Que existem desde que o mundo é mundo,
Desde que chamar-se Raimundo virou solução.
S-o-b-r-e-t-u-d-o
Há a sensação do porvir,
O sabor do não-virá...
E sente-se o vento que vem,
Ouve-se a onda que vai,
Vê-se o céu descorar,
Espera-se o tempo ruir.
E fica ruim.
Nessa, vai-se levando:
A mente dói,
O dedo dói,
e dói o subconsciente,
e pesa (muito) a consciência,
e perdura a dormência
(os olhos também pesam),
e sobra a deficiênciade horas,
de minutos,
de flashes
de lembranças -
Que apenas talvez tenham existido.
Há, sobretudo,
(e agora, José/Maria/Samuel?)
A dúvida.
Sobre tudo.
E agora?
O sabor do não-virá...
E sente-se o vento que vem,
Ouve-se a onda que vai,
Vê-se o céu descorar,
Espera-se o tempo ruir.
E fica ruim.
Nessa, vai-se levando:
A mente dói,
O dedo dói,
e dói o subconsciente,
e pesa (muito) a consciência,
e perdura a dormência
(os olhos também pesam),
e sobra a deficiênciade horas,
de minutos,
de flashes
de lembranças -
Que apenas talvez tenham existido.
Há, sobretudo,
(e agora, José/Maria/Samuel?)
A dúvida.
Sobre tudo.
E agora?
À procura de Morfeu
E, ao escurecer,
Quando tiro meus sapatos surrados,
Quando apago a lâmpada incandescente que paira sobre minha cabeça,
Quando penso nas dores doídas e nos amores amados,
É aí que sobra a agoniadas palavras que eu não disse,
das coisas que eu não fiz.
E lá na linha que não existe
(mas onde o Sol se refugia)
É lá que encontro as conclusões mais precisas sobre tudo,
É lá que descubro a hebetude das experiências,
É lá que vejo que só resta a rotina fungível
de todas as coisas que eu disse
de todas as palavras que eu fiz.
Quando tiro meus sapatos surrados,
Quando apago a lâmpada incandescente que paira sobre minha cabeça,
Quando penso nas dores doídas e nos amores amados,
É aí que sobra a agoniadas palavras que eu não disse,
das coisas que eu não fiz.
E lá na linha que não existe
(mas onde o Sol se refugia)
É lá que encontro as conclusões mais precisas sobre tudo,
É lá que descubro a hebetude das experiências,
É lá que vejo que só resta a rotina fungível
de todas as coisas que eu disse
de todas as palavras que eu fiz.
Conclusão
Tantos foram os quilos de dissabores que eu ganhei
E tantos foram os filhos de maus amores que conheci
Que a conta perdi e os números já nem sei
De quantas vezes amei e quantas vezes vivi.
E tantos foram os filhos de maus amores que conheci
Que a conta perdi e os números já nem sei
De quantas vezes amei e quantas vezes vivi.
Novo verbo
Eu sou pintora de lápis e papel na mão.
E eu pinto as cores do mundo
Pinto os acordes da voz
E pinto o sono profundo
E pinto os dias sem sóis
Eu pinto.
E eu sou poeta de tela e pincel na mão.
Escrevo quadros impressos
Escrevo os versos dos leigos
Escrevo olhares perplexos
Escrevo as mãos entre os beijos
Eu poeto.
E eu pinto as cores do mundo
Pinto os acordes da voz
E pinto o sono profundo
E pinto os dias sem sóis
Eu pinto.
E eu sou poeta de tela e pincel na mão.
Escrevo quadros impressos
Escrevo os versos dos leigos
Escrevo olhares perplexos
Escrevo as mãos entre os beijos
Eu poeto.
Poemeto sem graça sobre o medo
Eu tenho medo da vida
e de suas surpresas
e do tempo que me prende
e da rotina que me faz presa,
eu tenho medo.
E dessas putas
e desses bares
e desses lares
e desses ares
bucólicos, melancólicos, coléricos
e como eu, histéricos(!)
eu também tenho medo...
E me petrifica a morte,
o atravessar o mundo
feito ferida aberta
por esse dedo anelar
a me apontar o peito:o meu.
Mas medo, medo mesmo
pavor eu tenho é de gozar
sem nunca ter tido o amor
do amor maior/maior amor
que há – o seu.
(Ah! Disso eu morro de medo!)
e de suas surpresas
e do tempo que me prende
e da rotina que me faz presa,
eu tenho medo.
E dessas putas
e desses bares
e desses lares
e desses ares
bucólicos, melancólicos, coléricos
e como eu, histéricos(!)
eu também tenho medo...
E me petrifica a morte,
o atravessar o mundo
feito ferida aberta
por esse dedo anelar
a me apontar o peito:o meu.
Mas medo, medo mesmo
pavor eu tenho é de gozar
sem nunca ter tido o amor
do amor maior/maior amor
que há – o seu.
(Ah! Disso eu morro de medo!)
Céu
E foi:
Como fogo de palha,
Como a voz que me falha,
Como brisa que sopra,
Como a noite que cai.
E se foi:
Como o Sol que se põe,
Como um ser que se expõe,
Como vento que grita,
Como alguém que se vai.
E perdeu:
Perdeu tudo que tinha,
Voltou tudo que vinha,
E ainda não se contenta;
Perdeu tudo em vão.
E se perdeu:
se perdeu, foi achado,
Foi deixado de lado,
Como sopro que veio
[E se foi]
Chão.
Como fogo de palha,
Como a voz que me falha,
Como brisa que sopra,
Como a noite que cai.
E se foi:
Como o Sol que se põe,
Como um ser que se expõe,
Como vento que grita,
Como alguém que se vai.
E perdeu:
Perdeu tudo que tinha,
Voltou tudo que vinha,
E ainda não se contenta;
Perdeu tudo em vão.
E se perdeu:
se perdeu, foi achado,
Foi deixado de lado,
Como sopro que veio
[E se foi]
Chão.
Subentendido II
Diga-me que dói
e que lágrimas se escondem
e que você sente (já sei)
o ardor das mágoas que escorrem.
Eu te quero tanto
que quero que você me diga
que sofre porque ama –
e ama a mim – e que me peça
para acalentar seu sofrer
e estancar as gotas d’água
que eclodem.
Mas não sou boa com figuras de linguagem, amor
e tudo permanece nessa
metonímia.
e que lágrimas se escondem
e que você sente (já sei)
o ardor das mágoas que escorrem.
Eu te quero tanto
que quero que você me diga
que sofre porque ama –
e ama a mim – e que me peça
para acalentar seu sofrer
e estancar as gotas d’água
que eclodem.
Mas não sou boa com figuras de linguagem, amor
e tudo permanece nessa
metonímia.
Subentendido I
Fale-me que sente
que ama que sofre
e que quer e quer e quer
me querer sempre.
Pois eu te quero muito
constantemente...sofro
intensamente...amo
e temo e temo e temo
perde-lo
para o sopro
de todos os sentimentos que ficaram
subentendidos.
que ama que sofre
e que quer e quer e quer
me querer sempre.
Pois eu te quero muito
constantemente...sofro
intensamente...amo
e temo e temo e temo
perde-lo
para o sopro
de todos os sentimentos que ficaram
subentendidos.
Ai
Amor,
como dói ser gota de lágrima em dia de chuva!
Ainda bem que estou sendo lavada e levada vida abaixo...
Estou desapa-re-c e n...
como dói ser gota de lágrima em dia de chuva!
Ainda bem que estou sendo lavada e levada vida abaixo...
Estou desapa-re-c e n...
Gangorra
Bem,
estou cansada
de tentar equilibrar essa gangorra,
pois meu peso não leva a nada
e em minhas mãos só resta a borra
da maquiagem que escorre de meus olhos chorosos.
Nesses vaivéns vertiginosos
eu vôo até uma altura espantosa,
tão alto que me torno capaz de provar as nuvens
de um céu de poesia e prosa
e encher de hífens os pensamentos que ponho nesse papel.
Não chame de infiel
aquilo que escrevo ou sinto;
não há espaço para amor
numa simples estrofe ou num verso sucinto
que vive nesse brinquedo de criança a balançar como o vento.
Ainda insisto que não há tempo
para voltar – eu digo,
a perder – você pensa...
Não há espaço para esse amor mendigo
que preciso tanto insistir que não me abandone.
E não se engane!
Sei que estou certa
ao usar as mais doces palavras
para revelar-lhe que não importa
o tanto de rimas e lágrimas que em qualquer momento omiti.
Não menti
ao dizer que nossa gangorra sofre os efeitos
do peso de todos os meus risos
e todos os meus defeitos,
e que, mesmo assim, continuo a subir rumo à lua.
Só você me fez nua
da sombra que me cobre o dia,
fez brotar de meus lábios histórias
e de minhas mãos poesia,
fez-me mais leve que a mais leve pluma da mais bela ave.
Só não pensei ser tão grave
virar floco de algodão
e aproximar-me do céu.
Por mais que diga que não,
Você acabou me tornando (com sua ternura sem métrica) intocável
para todo o sempre.
Por isso, bem, até hoje choro tentando inutilmente por os pés no chão.
estou cansada
de tentar equilibrar essa gangorra,
pois meu peso não leva a nada
e em minhas mãos só resta a borra
da maquiagem que escorre de meus olhos chorosos.
Nesses vaivéns vertiginosos
eu vôo até uma altura espantosa,
tão alto que me torno capaz de provar as nuvens
de um céu de poesia e prosa
e encher de hífens os pensamentos que ponho nesse papel.
Não chame de infiel
aquilo que escrevo ou sinto;
não há espaço para amor
numa simples estrofe ou num verso sucinto
que vive nesse brinquedo de criança a balançar como o vento.
Ainda insisto que não há tempo
para voltar – eu digo,
a perder – você pensa...
Não há espaço para esse amor mendigo
que preciso tanto insistir que não me abandone.
E não se engane!
Sei que estou certa
ao usar as mais doces palavras
para revelar-lhe que não importa
o tanto de rimas e lágrimas que em qualquer momento omiti.
Não menti
ao dizer que nossa gangorra sofre os efeitos
do peso de todos os meus risos
e todos os meus defeitos,
e que, mesmo assim, continuo a subir rumo à lua.
Só você me fez nua
da sombra que me cobre o dia,
fez brotar de meus lábios histórias
e de minhas mãos poesia,
fez-me mais leve que a mais leve pluma da mais bela ave.
Só não pensei ser tão grave
virar floco de algodão
e aproximar-me do céu.
Por mais que diga que não,
Você acabou me tornando (com sua ternura sem métrica) intocável
para todo o sempre.
Por isso, bem, até hoje choro tentando inutilmente por os pés no chão.
O que ainda falta (ou ainda resta)
Não importa
Se o cabelo desgrenha-se
Ou se a respiração pesa.
Ainda respiro.
Não importa
Se os fatos travestem-se
Ou se deixaram de ser.
Ainda entendo.
Não importa
Se pensamentos embrenham-se
Ou se a visão se distorce.
Ainda vejo.
Não importa
Se os sabores disfarçam-se
Ou se o amargo domina.
Ainda sinto.
Só sei que ainda respiro,
Embora não entenda o que vejo.
Sei que sinto.
E sinto muito.
Se o cabelo desgrenha-se
Ou se a respiração pesa.
Ainda respiro.
Não importa
Se os fatos travestem-se
Ou se deixaram de ser.
Ainda entendo.
Não importa
Se pensamentos embrenham-se
Ou se a visão se distorce.
Ainda vejo.
Não importa
Se os sabores disfarçam-se
Ou se o amargo domina.
Ainda sinto.
Só sei que ainda respiro,
Embora não entenda o que vejo.
Sei que sinto.
E sinto muito.
Para quem permanece
Quem sofre reinventa todos os se's do mundo;
Cobre-se com lamúrias de futuros-do-pretérito,
Torna mudo o que era falante e calado o que foi histérico,
Quem sofre, ao sofrer transforma tudo.
Quem sofre faísca "talvezes" e justificativas para toda a dor,
Confecciona mil desculpas para dois mil convites.
Amor...
Amor!
Amor?
De onde surgem essas excusas?
Do nanquim e do grafite?
E quanto à austeridade que sofredores alegam ter entendimento,
Não a vejo - só enxergo ternura em meio ao breu;
Delicada teia urdida ao redor de um sentimento
[que os predispõe a desejar o bem de outrem
E infeliz-felizmente faz bem a alguém
[como eu.
Cobre-se com lamúrias de futuros-do-pretérito,
Torna mudo o que era falante e calado o que foi histérico,
Quem sofre, ao sofrer transforma tudo.
Quem sofre faísca "talvezes" e justificativas para toda a dor,
Confecciona mil desculpas para dois mil convites.
Amor...
Amor!
Amor?
De onde surgem essas excusas?
Do nanquim e do grafite?
E quanto à austeridade que sofredores alegam ter entendimento,
Não a vejo - só enxergo ternura em meio ao breu;
Delicada teia urdida ao redor de um sentimento
[que os predispõe a desejar o bem de outrem
E infeliz-felizmente faz bem a alguém
[como eu.
Inominável
Ao fundo dos meus mais profundos sonhos
em casas e camas e corpos e cores
em noites e tardes e dias risonhos
O que importa?
Que dores são essas que doem esses sonhos?...
Que bem que me faz se mal me consome
se queima aos poucos ou rouba aos molhos?
Pois pende
em casas e camas e corpos e cores
em noites e tardes e dias risonhos
O que importa?
nada importa...
[tantas dores!]
Que dores são essas que doem esses sonhos?...
Que bem que me faz se mal me consome
se queima aos poucos ou rouba aos molhos?
Pois pende
em meu lado
o peso da fome
que seca meus lábios e molha meus olhos.
Que medos são esses que sondam meus sonhos?
E quando o sono, rastejante, bate à porta
no mesmo instante puro e insano bate a pressa.
O frio, a sede
Que medos são esses que sondam meus sonhos?
E quando o sono, rastejante, bate à porta
no mesmo instante puro e insano bate a pressa.
O frio, a sede
o ar [meu rio!]
nada importa!
Nem céu nem chão nem mar, meu riso é que interessa.
Que sonhos são esses a que me disponho?
Que sonhos são esses a que me disponho?
Dicionário
Seus soturnos olhos
só refletem que sua boca pensa.
E pensa em mim...
Balbucia palavras doces
escondidas dentre um Aurélio de vocábulos que desconheço...
mas sei falarem de mim.
Flamante dor-desejo-sonho
impróprio-improrrogável-improvável
que você deixou ir embora, mesmo estando tão perto.
Pretérito imperfeito resguardado e corroído,
Misto de deslumbre e medo ressentido,
que poderia ter sido o mundo, mas foi só deserto.
só refletem que sua boca pensa.
E pensa em mim...
Balbucia palavras doces
escondidas dentre um Aurélio de vocábulos que desconheço...
mas sei falarem de mim.
Flamante dor-desejo-sonho
impróprio-improrrogável-improvável
que você deixou ir embora, mesmo estando tão perto.
Pretérito imperfeito resguardado e corroído,
Misto de deslumbre e medo ressentido,
que poderia ter sido o mundo, mas foi só deserto.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
A última palavra
Como um alcoólatra
que pela última vez se embriaga
Ou como o trago final
de um fumante
Largarei o vício da palavra.
Dela sou amante
Mas ela não mais me quer.
Sou a outra mulher
Que decora as linhas com rima fresca
e encharca os versos de perfume.
A palavra me consome
E depois some.
Sou a fêmea pitoresca que do poema
nunca é dona
Só musa.
E se a palavra me usa
O que mais posso fazer?
Chorarei este último verso
Até cair sozinha no sono
e todas as letras perderem sentido.
Palavra não é virtude.
É vício.
que pela última vez se embriaga
Ou como o trago final
de um fumante
Largarei o vício da palavra.
Dela sou amante
Mas ela não mais me quer.
Sou a outra mulher
Que decora as linhas com rima fresca
e encharca os versos de perfume.
A palavra me consome
E depois some.
Sou a fêmea pitoresca que do poema
nunca é dona
Só musa.
E se a palavra me usa
O que mais posso fazer?
Chorarei este último verso
Até cair sozinha no sono
e todas as letras perderem sentido.
Palavra não é virtude.
É vício.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Versalhada
E esse sentimento
me atraversa a garganta
ressecada...
De voz não tenho mais nada
e minha boca já não canta:
chora.
Quero ouvir de novo
a gargalhada
e ver o rolar da bola
e o raiar do dia,
quero paz,
quero agonia,
quero tudo
e quero agora.
Mas meu canto é mudo,
meu pesar é vasto
e meu sentir casto
se prostituiu.
Quero mudar o mundo,
encobrir a vala,
corrigir o erro,
e esquentar o frio.
Quero tudo
muito e agora,
antes que tudo mude,
antes que novamente
eu falhe,
antes que eu fale demais
e mais alguém se cale -
não darei um pio.
Eu calarei minha boca
antes que essa
versalhada louca
me endoideça de vez.
me atraversa a garganta
ressecada...
De voz não tenho mais nada
e minha boca já não canta:
chora.
Quero ouvir de novo
a gargalhada
e ver o rolar da bola
e o raiar do dia,
quero paz,
quero agonia,
quero tudo
e quero agora.
Mas meu canto é mudo,
meu pesar é vasto
e meu sentir casto
se prostituiu.
Quero mudar o mundo,
encobrir a vala,
corrigir o erro,
e esquentar o frio.
Quero tudo
muito e agora,
antes que tudo mude,
antes que novamente
eu falhe,
antes que eu fale demais
e mais alguém se cale -
não darei um pio.
Eu calarei minha boca
antes que essa
versalhada louca
me endoideça de vez.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Papier mâché
Tirei de mim
minha própria vida.
E não tinha gosto
de partida doce
ou de bebida amarga
o que levei de mim.
Tirei de mim minha dignidade,
meu esforço, meu desejo,
e fui pau-la-ti-na-men-te
deixando em minha cama
lençóis vazios.
O que levei embora
tinha gosto de cola e papel.
Meu medo,
ficando assim, descoberto,
sentiu-se só e teve frio.
Tanto, tanto, tanto...
que perdi a cabeça
e minha mente ficou aí,
vagando pelo espaço sideral
cheia de idéias alienígenas.
Tirei de mim mesma
minha vida.
E não senti o gosto
da bebida doce
nem da partida amarga.
O que levei tinha gosto
de carnaval em Veneza.
Junto com essa cidade
estou afundando.
Tanto, tanto, tanto...
que perdi a cabeça
e cometi um homicídio:
matei minha esperança.
Tirei de mim
minha própria vida.
Tirei com gosto;
já estava na hora.
A sobra de tanto papel machê
dará uma bela máscara
de colombina.
Nem doce, nem amarga.
Sorridente.
minha própria vida.
E não tinha gosto
de partida doce
ou de bebida amarga
o que levei de mim.
Tirei de mim minha dignidade,
meu esforço, meu desejo,
e fui pau-la-ti-na-men-te
deixando em minha cama
lençóis vazios.
O que levei embora
tinha gosto de cola e papel.
Meu medo,
ficando assim, descoberto,
sentiu-se só e teve frio.
Tanto, tanto, tanto...
que perdi a cabeça
e minha mente ficou aí,
vagando pelo espaço sideral
cheia de idéias alienígenas.
Tirei de mim mesma
minha vida.
E não senti o gosto
da bebida doce
nem da partida amarga.
O que levei tinha gosto
de carnaval em Veneza.
Junto com essa cidade
estou afundando.
Tanto, tanto, tanto...
que perdi a cabeça
e cometi um homicídio:
matei minha esperança.
Tirei de mim
minha própria vida.
Tirei com gosto;
já estava na hora.
A sobra de tanto papel machê
dará uma bela máscara
de colombina.
Nem doce, nem amarga.
Sorridente.
domingo, 29 de junho de 2008
Historinha sem fim para um amor assim
Era uma vez num jardim -
daqueles de cerquinha branca
e ficus muito bem podados -
uma orquídea.
E ali,
bem perto dos limites do cercado,
ali mesmo onde as flores-do-campo
flertavam descaradamente
com as flores do jardim,
havia também um dente-de-leão
que tentava incessantemente
chegar perto daquela tão bem
guardada flor.
Até que, um belo dia,
soprou uma daquelas brisas
que se pode jurar ter vindo do
sudoeste da França
e levou consigo o apaixonado
dente-de-leão, deixando-o
frente-a-frente à sua amada
orquídea.
Nesse instante as estrelas,
curiosas que eram,
desceram à terra para bisbilhotar
o amor dos dois,
e não conseguiram mais subir.
A lua sentiu-se tão só ao ver
aqueles pequenos lúmens vagando
pelo chão, que foi minguando
e minguando...
E em pouco tempo desapareceu
para sempre.
(Depois disso tudo ficou tão escuro
que não pude mais ver o que aconteceu...)
Fim.
daqueles de cerquinha branca
e ficus muito bem podados -
uma orquídea.
E ali,
bem perto dos limites do cercado,
ali mesmo onde as flores-do-campo
flertavam descaradamente
com as flores do jardim,
havia também um dente-de-leão
que tentava incessantemente
chegar perto daquela tão bem
guardada flor.
Até que, um belo dia,
soprou uma daquelas brisas
que se pode jurar ter vindo do
sudoeste da França
e levou consigo o apaixonado
dente-de-leão, deixando-o
frente-a-frente à sua amada
orquídea.
Nesse instante as estrelas,
curiosas que eram,
desceram à terra para bisbilhotar
o amor dos dois,
e não conseguiram mais subir.
A lua sentiu-se tão só ao ver
aqueles pequenos lúmens vagando
pelo chão, que foi minguando
e minguando...
E em pouco tempo desapareceu
para sempre.
(Depois disso tudo ficou tão escuro
que não pude mais ver o que aconteceu...)
Fim.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Poema cotó
Somos dois seres deslocados,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem pra mim
Que aí sim
Mesmo estando longe
Estarei ao seu lado.
Somos dois anjos imundos,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem, amor,
Que sem nenhum pudor
Faremos do instante o eterno
E de nossos corpos o mundo.
Somos duas nuvens rosadas,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem com o crepúsculo
E tire as forças de todos os meus músculos
Com qualquer besteira
Que me provoque risadas.
Somos duas crianças felizes,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem,
Vem,
Vem...
E fique.
Para sempre!
(Nossa paixão não tem rima.)
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem pra mim
Que aí sim
Mesmo estando longe
Estarei ao seu lado.
Somos dois anjos imundos,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem, amor,
Que sem nenhum pudor
Faremos do instante o eterno
E de nossos corpos o mundo.
Somos duas nuvens rosadas,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem com o crepúsculo
E tire as forças de todos os meus músculos
Com qualquer besteira
Que me provoque risadas.
Somos duas crianças felizes,
Meu bem.
Então vem,
Vem,
Vem,
Vem,
Vem...
E fique.
Para sempre!
(Nossa paixão não tem rima.)
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Poema Oblongo (ou O atestado da ausência de conteúdo)
Há um vazio na mente
Não minto
Não agora.
Nem amor
nem paixão
nem dor-de-dente
— nem mais nada
do que sinto —
me traria
palavras
à mão.
Não minto
Agora não.
O que me resta
portanto
e então
é esperar
que passe
o tempo
— e que esse
tempo cinza
passe.
Só lamento
o impasse
de não ter nada
a declarar.
In memoriam
Não minto
Não agora.
Nem amor
nem paixão
nem dor-de-dente
— nem mais nada
do que sinto —
me traria
palavras
à mão.
Não minto
Agora não.
O que me resta
portanto
e então
é esperar
que passe
o tempo
— e que esse
tempo cinza
passe.
Só lamento
o impasse
de não ter nada
a declarar.
In memoriam
domingo, 20 de abril de 2008
Ritmo de ressaca num dia cinza
A dor me exauriu.
Esse meu vício
no amor-superfície
me partiu em dois.
Quando se fende a carne
e é profundo o corte,
sei lá se por acaso ou por
pura sorte, mas não se sente.
Quando se risca a pele
ou o pêlo fica em brasa,
quando se arranha a vaidade
e o ego se arrasa: dói.
Vou pôr no armário
esse verbo imundo
que diz todo o mundo
estar cheio de ética.
Ficarei satisfeito; tudo ilusão.
Quero –e quero agora– um amor profundo
e um copo de vodka desses bem fundos
–just in case– só por precaução.
Esse meu vício
no amor-superfície
me partiu em dois.
Quando se fende a carne
e é profundo o corte,
sei lá se por acaso ou por
pura sorte, mas não se sente.
Quando se risca a pele
ou o pêlo fica em brasa,
quando se arranha a vaidade
e o ego se arrasa: dói.
Vou pôr no armário
esse verbo imundo
que diz todo o mundo
estar cheio de ética.
Ficarei satisfeito; tudo ilusão.
Quero –e quero agora– um amor profundo
e um copo de vodka desses bem fundos
–just in case– só por precaução.
sábado, 19 de abril de 2008
Dilúvio
E cai a gota
gota d'água
que molha a planta
enquanto eu,
aqui no meu canto,
me afogo na mágoa.
O pranto que solto
é a noite que leva
e o sol que se eleva
é que o traz de volta.
Volta-e-meia
desperdiço vida
escrevendo uma enchente
de desejos sem nexo.
O mais complexo
é imaginar
uma morte inteira
capaz de secá-los.
Enquanto isso
fico aqui na esquina
esperando o tempo
de chegar o ônibus
ou talvez de um motorista
bem desatento
me passar por cima
e levar embora
esse chuva
travestida de choro
de criança.
Mais uma letra e eu transbor
gota d'água
que molha a planta
enquanto eu,
aqui no meu canto,
me afogo na mágoa.
O pranto que solto
é a noite que leva
e o sol que se eleva
é que o traz de volta.
Volta-e-meia
desperdiço vida
escrevendo uma enchente
de desejos sem nexo.
O mais complexo
é imaginar
uma morte inteira
capaz de secá-los.
Enquanto isso
fico aqui na esquina
esperando o tempo
de chegar o ônibus
ou talvez de um motorista
bem desatento
me passar por cima
e levar embora
esse chuva
travestida de choro
de criança.
Mais uma letra e eu transbor
[do.
sábado, 5 de abril de 2008
Esboço
Não tenho dó da vida.
Tenho rés
mis
fás
Tenho dança,
Tenho bolerão brega
e brincadeira de criança.
Tenho silêncio -
um diálogo mudo entre amantes -
trago mudança.
Tenho diamantes,
pérolas
e outras pedras preciosas.
Levo uma vida ociosa
e do comum estou farta -
Não vou falar do banal.
Tenho pressa
e tenho medo,
e me sinto mal.
Vivo intensamente
cada instante que me resta.
Eu faço a festa:
minto -
e quem não mente? -
sinto -
e quem não sente?
todo mundo ama
todo mundo sofre
todo mundo se arrepende
todo mundo chora
Sentir é banal
(faço uma nova-dança-muda)
Não vou falar de sentimentos.
Tenho rés
mis
fás
Tenho dança,
Tenho bolerão brega
e brincadeira de criança.
Tenho silêncio -
um diálogo mudo entre amantes -
trago mudança.
Tenho diamantes,
pérolas
e outras pedras preciosas.
Levo uma vida ociosa
e do comum estou farta -
Não vou falar do banal.
Tenho pressa
e tenho medo,
e me sinto mal.
Vivo intensamente
cada instante que me resta.
Eu faço a festa:
minto -
e quem não mente? -
sinto -
e quem não sente?
todo mundo ama
todo mundo sofre
todo mundo se arrepende
todo mundo chora
Sentir é banal
(faço uma nova-dança-muda)
Não vou falar de sentimentos.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Variegado
A paixão que veio com a brisa morna do verão
e subiu junto com a maré da tarde
foi embora na ressaca de um abraço.
Não é o mesmo gosto de bala que fica na boca,
não é o mesmo perfume que cola na blusa
nem são as mesmas roupas que cobrem o corpo.
Mas quanto ao sentimento...
Ah, ele também não é o mesmo.
As cores de nossos beijos
dos gostos
dos cheiros
das carícias
não são as de antes.
Toda a sinestesia da nossa eternidade
mudou.
Nossa eternidade cabe em um segundo
furta-cor.
Ou monocromático.
Agora,
numa hipótese pessimista,
resta a amizade e o carinho de anos
em que tudo o que não foi dito
foi finalmente tirado do cofrinho do peito.
E tudo foi dito.
E finalmente tudo mudou.
Nossa eternidade agora resiste
e existe
naquele porta-retratos com uma foto
colorida e outra em preto-e-branco.
e subiu junto com a maré da tarde
foi embora na ressaca de um abraço.
Não é o mesmo gosto de bala que fica na boca,
não é o mesmo perfume que cola na blusa
nem são as mesmas roupas que cobrem o corpo.
Mas quanto ao sentimento...
Ah, ele também não é o mesmo.
As cores de nossos beijos
dos gostos
dos cheiros
das carícias
não são as de antes.
Toda a sinestesia da nossa eternidade
mudou.
Nossa eternidade cabe em um segundo
furta-cor.
Ou monocromático.
Agora,
numa hipótese pessimista,
resta a amizade e o carinho de anos
em que tudo o que não foi dito
foi finalmente tirado do cofrinho do peito.
E tudo foi dito.
E finalmente tudo mudou.
Nossa eternidade agora resiste
e existe
naquele porta-retratos com uma foto
colorida e outra em preto-e-branco.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
1 + 1
Junte minhas mãos brancas
às suas mãos negras
e teremos um poema.
Não importa se curto
como uma manhã de inverno
Ou se longo
como uma consulta ao dentista
Ou se complexo
como cálculos trigonométricos
Ou se simples
como o amor de criança.
Junte o branco dos seus olhos
ao negro dos meus
e teremos poesia.
E será triste
nos dias de março
E contente
nas manhãs de sol
E causará preguiça
frente às obrigações
E será impulso
quando indicar prazer.
Meus olhos e suas mãos
vão se enegrecendo
de grafite.
Você escreve.
Eu leio.
às suas mãos negras
e teremos um poema.
Não importa se curto
como uma manhã de inverno
Ou se longo
como uma consulta ao dentista
Ou se complexo
como cálculos trigonométricos
Ou se simples
como o amor de criança.
Junte o branco dos seus olhos
ao negro dos meus
e teremos poesia.
E será triste
nos dias de março
E contente
nas manhãs de sol
E causará preguiça
frente às obrigações
E será impulso
quando indicar prazer.
Meus olhos e suas mãos
vão se enegrecendo
de grafite.
Você escreve.
Eu leio.
Queria sentir o lirismo dos românticos para escrever o amor. Queria sentir a forma parnasiana para escrever as manhãs de domingo. Queria sentir a ferocidade animalesca dos naturalistas para escrever o sexo. Queria sentir a paz de uma criança para escrever um conto-de-fadas com final feliz. Mas sequer encontei a paz de escrever a palavra. Já diria um amigo meu que a palavra é vício e não virtude. Por que diabos então não consigo me desentoxicar? Odeio a palavra. Odeio a palavra e todo amor, toda manhã de domingo, todo sexo e todo conto-de-fadas que não consigo escrever com ela.
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